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Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), os transtornos alimentares (PICA, Transtorno de Ruminação, Anorexia Nervosa, Bulimia Nervosa, Transtorno Alimentar Restritivo/ Evitativo – TARE e Transtorno Alimentar Não Especificado) são classificados como uma desordem persistente nos hábitos e/ou comportamentos relacionados à alimentação, resultando no consumo ou absorção alterada de alimentos e nutrientes, que comprometem significativamente a vida psicossocial e a saúde como um todo.

O TARE, popularmente conhecido como seletividade alimentar, ocorre quando a pessoa ingere uma variedade restrita de alimentos, muitas vezes excluindo grupos alimentares ou reduzindo a quantidade dos alimentos já consumidos, a ponto restringir cada vez mais, estabelecendo muitas vezes, deficiências nutricionais significativas, como perda de peso (ou insucesso em obter o ganho de peso esperado ou atraso de crescimento em crianças), dependência de alimentação enteral ou suplementos nutricionais orais e interferência no funcionamento psicossocial. Muitas vezes essas crianças apresentam seleção não só pelos grupos alimentares, mas também pela forma de apresentação do alimento, cor, temperatura, textura e cheiro. São resistentes a alimentos novos, ou seja, apresentam neofobia alimentar.

Estudos demonstram que os transtornos alimentares em crianças afetam aproximadamente 45% da população com desenvolvimento típico, e pode chegar até 90% da população com TEA, sendo 70% descritos como seletividade alimentar, gerando assim,  prejuízos à saúde e qualidade de vida.

Uma maioria das crianças com TEA são descritas pelos pais e responsáveis como seletivos, apesar de não apresentarem prejuízo ao estado nutricional, nos horários e práticas alimentares. Desta maneira, diversos estudos demonstram que essas crianças possuem um padrão alimentar caracterizado pelo maior consumo de alimentos processados e ultraprocessados, ricos em açúcar, sal e gordura e restrição de grupos alimentares menos calóricos e nutritivos como vegetais, frutas, laticínios e proteínas. Essas crianças apresentam maior risco de deficiência nutricional, pois esta pode passar despercebida, uma vez que pode não envolver comprometimento no crescimento ou diminuição da ingestão de calorias.

Existem alguns sinais e sintomas que precisam ser considerados no caso das dificuldades alimentares, sendo classificados como orgânicos ou comportamentais. No caso das condições orgânicas, pode estar envolvido em condições médicas como refluxo gastroesofágico, alergia alimentar, disfagia, dor ao se alimentar, diarreia,  dentre outros, que promovem a aversão alimentar. Os fatores comportamentais, englobam  fixação por determinados alimentos, interrupção abrupta da alimentação após alguma situação traumática, tosse antecipatória, refeições estressantes e com comportamentos disruptivos, déficit nas habilidades de alimentação independente, alimentação durante a noite mediada pelos responsáveis, necessidade de distrações no momento da alimentação, período de amamentação ou uso de mamadeira prolongado e dificuldade para ingerir alimentos com novas texturas. Além disso, a presença e os hábitos da família e cuidadores alteram, na maioria das vezes, o comportamento de uma criança ou adolescente perante as refeições.

A intervenção precoce para distúrbios pediátricos relacionados à alimentação é de extrema importância para que os prejuízos causados por esta não atinjam um grau de severidade elevado, influenciando assim seu crescimento, desenvolvimento e qualidade de vida do indivíduo e seus familiares e cuidadores.

Para realizar uma intervenção eficaz, é necessário não só avaliar o indivíduo com dificuldades na alimentação, mas também o ambiente em que se relaciona, além de seus familiares e cuidadores. Também faz-se necessário a atuação da equipe multiprofissional, com psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, nutricionista, dentre outros, para avaliar e intervir, quando necessário, nas diferentes habilidades envolventes a seletividade alimentar, sendo essas características sensoriais, aumentar e adequar a variedade da dieta e estimular a aceitação de novos alimentos ou forma de apresentação.

 

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Giovana Pegorer Perandin

CRN3: 57914 Nutricionista graduada pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul, pós graduanda em Nutrição Clínica Avançada pela mesma Universidade e pós graduanda em Intervenção ABA para Autismo e Deficiência Intelectual pelo Child Behavior Institute (CBI) of Miami. Atua na área clínica com atendimentos nutricionais para crianças, adolescentes, adultos e idosos. Atualmente também é nutricionista na Nexo Intervenção Comportamental com atendimentos nutricionais individualizados para crianças e adolescentes, atendimento de indivíduos com distúrbios alimentares pediátricos, além de desenvolver pesquisas na mesma área.

Nexo Intervenção Comportamental